Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

Tristeza, Desmotivação e Depressão. Os Sofrimentos da Alma

Tenho recebido diversas mensagens que dizem respeito a uma incompreensão sobre o porquê de determinadas pessoas se sentirem tristes e desmotivadas mesmo após terem sido tratadas de quadros depressivos (mesmo com bons resultados), porém não se alegram, não sentem motivação e mesmo na ausência das Doenças Depressivas permanecem inconsoláveis. Não conseguem discernir entre a tristeza e a alegria, entre a felicidade e o despropósito.


Como já escrevi em outras respostas recentes a perguntas a mim enviadas, digo que existe hoje uma corrente de pensamento materialista e humanista contaminando seriamente a Medicina. A título de esclarecimentos, Humanismo nada tem a ver com Humanidade (consideração e respeito ao próximo), mas sim com um segmento do pensamento filosófico que acredita, dentre outras coisas, que o ser humano não passa de um punhado de matéria orgânica bem organizada. Segundo propõem eles, a alma não existe, logo tudo é físico e não passamos de um mero resultado de uma fictícia Evolução cujas provas e comprovações simplesmente inexistem. A Evolução é um dos maiores embustes pseudocientíficos de toda a história da atividade humana. A Evolução é hoje uma indústria altamente lucrativa para muitos, ao mesmo tempo em que se encontra, ela própria, imersa no mais explícito dos descréditos, pois sempre asseverou atrevidamente mesmo sem provas, sempre afirmou sem apresentar evidências e permanece, inevitavelmente, como qualquer outra mera teoria especulativa estancada, e quando se move, o faz no mesmo território no qual também se encontra a ficção científica. E de lá jamais sairá. Digo estas coisas porque a negação da alma não resulta em outra coisa senão em incompreensão e em sofrimento.


A Alma e a Mente

Alma (do Hebraico: Nefesh e do Grego: Psykhé) é a essência do ser humano e significa: Ser que respira e que tem vida; Ser que vive e que possui consciência de existir; e ainda: Ser vivente que pensa.
A Alma é distinta do corpo (do Grego: Sôma; o organismo material), embora nele resida e através dele interaja com o universo à sua volta pelas, apenas parcialmente conhecidas, funções do Sistema Nervoso Central.
Ao observarmos, por exemplo, uma pessoa pulando de alegria, podemos ver a alma (psykhé) se manifestando através do corpo (Sôma), porém ao olharmos para um cadáver, vemos somente o corpo (Sôma) sem vida (ânima e psykhé).
Quanto às atividades do pensamento, dos afetos, dos sentimentos e da consciência, estas se manifestam justamente na interação e na coexistência do corpo com a alma (ânima, psykhé e sôma). Por esta razão, e como já dito, um corpo morto nada mais é do que sôma. Já não mais existe expressão alguma, nada mais se ouve e cessaram todas as manifestações da linguagem. Houve, portanto uma dissociação evidente.
Podemos observar esta interação de modo notável quando, por exemplo, uma pessoa antes saudável, mas que após um sério traumatismo crânio-encefálico deixa de se expressar corretamente. Seus pensamentos e afetos já não mais podem ser expressos de forma plenamente inteligível, pois as funções neurológicas (as vias de percepção do mundo físico e de expressão interativa da alma) estão comprometidas e danificadas. Mesmo em situações assim, a alma humana (ânima e psykhé) permanece ativa assim como persistem as suas necessidades, todavia já não mais percebe (sensopercepção) de modo correto, ainda que também se expresse através de uma linguagem ativa, porém incompreensível e em muitas situações absolutamente inacessível tanto ao cuidador como ao observador.


Desta forma e por estas observações, uma distinção verdadeira entre as necessidades da alma e as necessidades do corpo se faz necessária, caso contrário já estaremos fatalmente atingidos e presos nas armadilhas do pensamento materialista e humanista secular, ou seja: não existe alma, tudo é fruto do acaso, a existência não possui nenhum significado transcendente ou excelso, e, em última análise, segundo eles, não há Deus. E se não há Deus, não teremos de prestar contas a ninguém, façamos o que melhor nos parecer e demos asas a todos os nossos desejos e intenções, ainda que estes venham a se tornar em prejuízo alheio. Este é, justamente, o pensamento que se encontra por trás de todos os regimes políticos totalitários, ditatoriais e fascistas, e por isso mesmo esses conceitos são propalados, propagandeados e cultivados, pois o mundo caminha rumo a um regime político e econômico global ditatorial e tirano. E para que não haja aqui nenhuma incompreensão, não estamos nos referindo ao Ateísmo enquanto posicionamento filosófico ou ideológico. Não nos interessa aqui discutirmos sobre o Ateísmo, um assunto que não diz respeito à ciência médica. Estamos, isto sim, falando sobre Medicina e sobre Psiquiatria, e no caso específico desta última, militamos a fim de que esta ciência médica não seja mais afetada do que já está pela pseudociência humanista secular. A visão humanista secular tem dado suporte a todo tipo de distorções conceituais sobre a natureza humana.

Os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina

Os Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs) bem como os Inibidores Seletivos da Recaptação de Noradrenalina (ISRNs) são medicamentos com efeitos extraordinários. Estas medicações têm sido capazes de tratar e de ajudar muita gente, chegando mesmo ao ponto de livrar muitas pessoa do suicídio. As Depressões são doenças psiquiátricas hoje já relativamente bem conhecidas e os medicamentos antidepressivos se constituem em notáveis peças do arsenal farmacológico de que hoje dispõe a Medicina. Porém, e certamente para surpresa de alguns, seus mecanismos de ação não são plenamente conhecidos, pelo contrário, são medicamentos cujas assertivas de eficácia se sustentam muito mais na observação empírica do que na certeza de uma definição científica plenamente demonstrada e comprovada.

Mesmo a despeito da existência de uma montanha enorme de estudos e de pesquisas sobre essas medicações, na realidade toda essa montanha de produção científica se fundamenta em uma teoria, a saber, a Teoria das Aminas Biogênicas Cerebrais (a hipótese monoaminérgica da depressão), teoria essa que propõe que o humor se encontra em uma relação indissociável entre a atividade de neurotransmissores cerebrais, sobretudo a serotonina, a dopamina e a norepinefrina, as quais modulam o humor e o comportamento em uma não completamente elucidada ação e interação com o sistema límbico cerebral. Segundo esta teoria, atividades químicas cerebrais deficientes estariam por trás da origem das doenças depressivas e de tantos outros transtornos psiquiátricos. E embora os benefícios destas medicações no tratamento de doenças depressivas sejam inquestionáveis, isto nada tem a ver com a solução para a tristeza da alma ou para a ausência de significado para o existir de muitos. Em outras palavras, depressão, tristeza e desmotivação não são a mesma coisa, e se não são a mesma coisa, os tratamentos para cada uma delas dificilmente serão os mesmos. Também não são igualmente eficazes para os diferentes conjuntos de sintomas e de manifestações inerentes a cada uma destas expressões do sofrimento humano.
Evidência disto, e como já brevemente mencionado acima, não são poucas as pessoas que mesmo após terem saído de quadros depressivos clássicos pelo auxílio de antidepressivos, permanecem tristes e até mesmo apáticas diante de suas próprias vidas.

A seguir publico uma destas mensagens que tenho recebido, a qual bem explicita aspectos destes pontos nos quais estamos tocando e evidencia a realidade da qual estamos falando. Publico, com a autorização do autor da mensagem a mim enviada, sem, obviamente, identificá-lo. Vejamos e atentemos bem para este muito bem ordenado e objetivo relato. Nenhuma vírgula de seu relato foi alterada e nenhuma correção gramatical ou terminológica foi feita (o que seria irrelevante).


“Olá, Dr., Tudo bom? Me chamo (...) e resido em Natal/RN e tenho 22 anos. Aos 17 anos iniciei meu tratamento para a depressão, fazendo uso de antidepressivos. O primeiro medicamento que tomei foi a Paroxetina, por um período de dois anos. O efeito da droga foi bom no início, mas, ao passar de alguns meses, sua eficácia foi diminuindo, e eu comecei oscilar bastante: oras ficava extremamente triste, e oras feliz. Após muitas reclamações minhas, eu e minha psiquiatra resolvemos trocar pelo Citalopram, com o qual eu me adaptei muito bem. Tomo o Citalopram há três anos e minha depressão está completamente controlada, porém sinto alguns efeitos desagradáveis, que não sentia antes e que tenho quase certeza que estão associados ao medicamento que eu tomo. São eles: perda do apetite sexual e muita dificuldade na ereção, perda da agilidade mental (algumas vezes, acho que me tornei dislexo, ou algo do tipo, pois não consigo me concentrar em NADA, e meu raciocínio está muito demorado! Meu rendimento na faculdade é perto de 0! Além disso, meus pensamentos ficam embaralhados, confusos. Não consigo mais escrever textos com coesão, como antigamente. Embaralho as palavras quando quero me expressar. É como se o remédio estivesse me deixando mais, desculpe a palavra, idiota. Em relação as minhas emoções, não me sinto mais triste, como quando estava com depressão, mas também não me sinto feliz. Estou completamente apático. Mal consigo chorar quando algo me emociona. Aliás, nada mais me emociona. As vezes fico me perguntando se vale a pena viver assim. Já relatei isso a minha psiquiatra diversas vezes, mas ela não parece não me ouvir. Sempre diz que isso é insignificante se comparar ao ganho que eu tive, em relação a minha tristeza, que desapareceu. Gostaria muito de sua ajuda, Dr., pois não sei mais o que fazer. Me trato com essa psiquiatra há 6 anos, e tenho medo de mudar pra outro profissional. Tenho medo da depressão voltar se eu mudar de psiquiatra, entende? Há alguma solução? O que devo fazer?” (Rio Grande do Norte)

Antes de prosseguir, agradeço a esta pessoa não somente pela consideração que teve para conosco nos enviando esta mensagem, bem como lhe agradeço por autorizar sua publicação, pois meus objetivos finais são sempre os mesmos, quais sejam, ajudar, colaborar, edificar e esclarecer, lançando eu mão dos conhecimentos técnicos que possuo como médico psiquiatra e expondo-os ao proveito do próximo, sendo esta a própria razão da existência e da manutenção de meus sites na internet.

Por ora finalizando, reafirmo que a própria definição do que seja a Psiquiatria (do grego Psyché = alma; + iatria = tratamento) não permite sejam negligenciados os aspectos não físicos e invisíveis da existência humana e da constituição do próprio ser humano na hora da abordagem do sofrimento psíquico. Também digo que há, e continuará a haver, uma significativa quantidade de pessoas que jamais responderão a tratamentos psiquiátricos restritos à simples prescrição de antidepressivos, pertençam eles a que categoria for. E isto porque a problemática do sofrimento da alma não se reduz ao que até hoje se conhece sobre a neuroquímica cerebral.


As linguagens da alma humana necessitam de ser ouvidas e atendidas em suas necessidades nos apelos por ajuda, todavia, e em muitas situações, o alívio desses sofrimentos jamais poderá chegar se tudo estiver conceitualmente reduzido ao que é meramente físico e químico. O ser humano é muito mais do que isto. E também são muito maiores as suas necessidades.

 

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo