O Século do Conhecimento e das Aflições
O século XXI trouxe consigo uma
impressionante torrente de novos conhecimentos e de avanços científicos. Se
observarmos a História de apenas cem anos atrás, poderemos ter a visão de que,
para alguém que viveu no início do século XX, o que hoje acontece seria
inimaginável e inconcebível. A realidade virtual, a velocidade das comunicações
e dos transportes, o impressionante volume de informações disponíveis na
Internet, os equipamentos médicos modernos, as intervenções da genética, as
cirurgias de transplantes e o atual processo da economia globalizada soariam,
para a maioria de antigamente, como fantasias, sonhos ou delírios. Mas isto tudo
é hoje a nossa realidade tangível e palpável. Nela vivemos e com ela temos, quer
queiramos ou não, de interagir.
Sem deixar de lembrar das impactantes diferenças regionais e das contrastantes
desigualdades entre o desenvolvimento de diferentes nações e povos da terra, o
fato é que hoje vivemos em uma realidade que seria apenas como uma cena de algum
livro de ficção científica de alguns anos atrás. Se alguém tiver a oportunidade
de sobrevoar, à noite, qualquer uma das principais capitais do mundo, terá um
forte impacto visual inesquecível. Não há recursos gráficos artificiais que
possam, sequer minimamente, imitar a realidade emocionante de um vôo noturno
sobre a cidade de São Paulo ou do Rio de Janeiro, por exemplo. O incontável
desfilar de luzes e o impacto da grandiosidade das dimensões destas cidades,
vistas do alto, é tremendamente impressionante. Parece uma cena de ficção, mas é
o mundo real, fascinante, sedutor e pomposo dos nossos dias. Os recursos
tecnológicos de que hoje dispomos são, realmente, fascinantes, e tudo parece ser
possível ao alcance do toque em algum botão.
Os grandes shopping centers, com o estonteante brilho de suas vitrines, exibem
uma como que cornucópia de bens de consumo, e a abundância nas prateleiras de
alimentos dos megamercados das grandes cidades podem dar a impressão de que
somos auto-suficientes e de que a felicidade está a apenas alguns centímetros de
distância.
Porém, na verdade, esta é apenas a área mais iluminada pelos holofotes do show
da tecnologia e dos templos do consumo dos nossos dias. Mas há algo mais
acontecendo nos bastidores. E este algo mais não é freqüentemente iluminado
pelos holofotes.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, OMS, dentre os medicamentos de uso em
psiquiatria mais vendidos no mundo, estão os ansiolíticos, os antidepressivos e
os antipsicóticos, os quais respondem, juntos, por cerca de 60% dos
psicofármacos vendidos no planeta¹. E no ano de 2003 o antidepressivo Sertralina
foi o sétimo medicamento em vendas nos Estados Unidos, sendo que entre os dez
medicamentos mais vendidos, naquele mesmo ano, dois eram medicamentos de uso em
Psiquiatria (Olanzapina e Sertralina)². Em 2004 a Olanzapina já ocupava o
terceiro lugar em vendas no mundo.
Entre os medicamentos mais vendidos no mundo estão os benzodiazepínicos e também
os antiinflamatórios não hormonais. Os primeiros, comumente chamados de
calmantes, possuem efeito tranquilizante e de relaxamento muscular, os segundos
agem combatendo inflamações e dores. Ambos os grupos de medicamentos têm suas
indicações médicas e terapêuticas específicas, mas a maioria das pessoas parece
buscar algum alívio extra nestas duas classes de medicamentos, o que pode ajudar
a explicar o porquê dessa enorme quantidade desses medicamentos vendidos
anualmente. Em um levantamento realizado pelo Ministério da Fazenda, em 1999, o
benzodiazepínico Bromazepam já ocupava o nono lugar no ranking dos medicamentos
mais vendidos no Brasil, estando o Diclofenaco ocupando a primeira e a quarta
posição, sob diferentes nomes comerciais.
A automedicação é uma realidade que não podemos ignorar, à despeito de todas as
advertências que fazemos visando minimizar, ao máximo, essa prática. Muitos
buscam algum tipo de alívio para suas dores físicas, obviamente, mas parecem
lançar também uma expectativa extra sobre os efeitos analgésicos dessas drogas.
É o momento quando começam a se mesclar as necessidades de alívio para as dores
físicas com as dores mentais e as dores emocionais.
O enorme crescimento da utilização destas medicações não revela apenas o aspecto
técnico da crescente necessidade de uso desses medicamentos, mas também nos
revela que algo não vai nada bem no âmbito da saúde mental. Também cresce,
exponencialmente, a venda dos antipsicóticos, medicamentos usados para aliviar e
tratar os transtornos psicóticos clássicos, como a esquizofrenia, por exemplo, e
outras enfermidades psiquiátricas com aspectos psicóticos as quais estão
afetando, dramaticamente, a população do mundo inteiro. Aliás, sobre as doenças
mentais com características psicóticas, podemos chegar a acreditar que são,
algumas delas, consequências diretas ou indiretas do lamentável e literal
processo de enlouquecimento de muita gente pelo mundo afora. E estes dados não
são nada agradáveis.
Os transtornos de ansiedade e os transtornos do humor não somente crescem em
prevalência, em todo o mundo, mas também os reflexos deste fenômeno de
crescimento são igualmente mais notáveis e polifacetados. Há uma estreitíssima
relação entre o crescente aumento dos transtornos psiquiátricos na população e o
aumento geral do consumo de medicamentos no mundo.
Ainda sobre os medicamentos mais vendidos do planeta, por classe terapêutica, os
antiulcerosos ocupam a lista dos dez mais, ou Top Ten. Os antiulcerosos são
medicamentos utilizados em medicina a fim de tratar pacientes portadores de
úlceras, gastrites, esofagites e tantos outros males do aparelho digestivo. O
papel de fundo dos transtornos psiquiátricos na etiopatogenia destas doenças do
aparelho digestivo é acentuadamente marcante. E já é mais do que bem conhecido o
papel do estresse na origem de enorme parte dos casos de úlceras do estômago³.
Outro dado mais do que alarmante é o incontrolável crescimento mundial do uso,
do abuso e da dependência do álcool e de outras drogas psicoativas. E o que, até
a década de sessenta, parecia uma simples opção por novas emoções se transformou
em uma desesperada busca de alívio para o sofrimento mental e emocional.
Desconhecendo ou, simplesmente, não podendo ter acesso às mais modernas técnicas
psiquiátricas para alívio e tratamento de transtornos mentais, adultos, jovens e
velhos têm se lançado ao uso do álcool e de outras drogas com o objetivo de
tentar escapar aos lancinantes sofrimentos causados por uma pesada carga de
pressão física, mental e emocional que exerce o atual sistema social e econômico
mundial sobre a vida das pessoas. Estes efeitos estressantes têm sido
registrados em estudos e levantamentos das Nações Unidas sobre os principais
problemas vigentes no mundo, dentre os quais se destaca a crescente busca dos
jovens pela alienação da percepção da realidade devido ao tenebroso panorama à
sua frente que, já desde adolescentes, muitos jovens vislumbram e percebem.
Igualmente preocupante é o fato de os diagnósticos das fobias (medos) estarem
despontando entre os principais diagnósticos psiquiátricos de transtornos
mentais no mundo todo.
Ainda outro dado revelador da elevada e crescente prevalência de transtornos
mentais e afetivos no mundo foi apresentado por um excelente levantamento da
Organização Mundial de Saúde, OMS, que evidencia que um em cada três pacientes
em todo o planeta carece de atenção e de cuidados na esfera da saúde mental.
Este estudo intitulado de Mental Illness in General Health Care (Doença Mental
em Cuidados de Saúde Geral) é considerado pela própria OMS o maior e mais vasto
estudo já realizado sobre a prevalência de doenças psiquiátricas dentro do
âmbito dos cuidados de saúde primários (Primary Care) em todo o mundo. Estes
transtornos mentais podem ser encontrados sob as mais diversas formas de
apresentação, as quais incluem alterações do sono, episódios de irritabilidade,
diferentes níveis de estresse, angústias, temores inexplicados, sintomas sem uma
causa aparente até graves transtornos depressivos e francos transtornos
psicóticos, despontando as fobias e as depressões como as campeãs estatísticas
entre os transtornos mentais presentes na população de modo geral. Todos estes
dados mostram que uma como que fuga em grande massa está em pleno curso diante
dos nossos olhos. Mas fuga de que e para onde, exatamente?
Novas guerras e revoluções eclodem quase que ininterruptamente pelo mundo todo,
o mascarado colapso da estrutura financeira mundial, as intermináveis recessões
econômicas acontecendo no ocidente e no oriente, a incontrolável violência das
grandes e das pequenas cidades, as importantes desigualdades sociais, o
incontável e crescente número de pessoas vivendo na mais absoluta miséria, o
tráfico de drogas, a corrupção escancaradamente praticada por muitos políticos
irônicos, impunes e debochados, o desemprego, a disseminação de doenças e de
epidemias, as traições, os subornos, os falsos testemunhos e os roubos, e ainda
o inebriante estado de incerteza no qual o mundo inteiro está imerso, são
fatores francamente desencadeantes ou agravantes de muitos transtornos mentais,
os quais são acompanhados de grande sofrimento psíquico e emocional. O triste e
real espetáculo macabro deste autêntico circo dos horrores é mais do que
suficiente para ser responsabilizado, em grande medida, pelo crescente número de
indivíduos que experimentam as dores do adoecer mental e emocional. Mas isto os
holofotes não buscam mostrar.
A começar pelos mais jovens, sobretudo adolescentes e indivíduos com menos de
vinte e quatro anos de idade, a nefasta onda de desestruturação familiar os têm
conduzido a uma grave ausência de modelos de referência paterna e materna em que
deveriam se moldar. Muitos jovens são deixados ao sabor dos ventos e
completamente desprovidos de uma educação e de uma formação fundamentadas na
milenar e salutar estrutura familiar. Como que à deriva em um mar bravio, sem
bússola e com o céu nublado, muitos desses jovens indivíduos terminam por
abraçar referenciais absolutamente inadequados e nocivos ao seu desenvolvimento
mental, emocional, e social. E os piores modelos de referência têm sido os que
são apresentados pelo cinema e pela televisão, acrescentando-se o fato de que os
mais jovens são muito mais suscetíveis e vulneráveis às suas influências. Não
que a televisão seja a responsável maior pelo adoecer mental das pessoas, mas,
indubitavelmente, a televisão se constituiu em um dos mais sérios e poderosos
cofatores intervenientes do adoecer mental de muitos pelo mundo afora.
Não poderia deixar aqui de mencionar uma frase dita pelo famoso cineasta Alfred
Hitchcock:
"A televisão tem feito muito pela Psiquiatria! Não somente por divulgá-la, mas
também por fazer aumentar a necessidade por Psiquiatras!"
Infelizmente, esta afirmação de Hitchcock traduz um crescente fenômeno social e
cultural que está atingindo, de maneira persistente e cruel, adultos, velhos e
muitos jovens e adolescentes. Não bastasse o depressivo e desestimulante teor
sensacionalista e mórbido da maioria dos noticiários da televisão, muitos
filmes, principalmente os norte-americanos, os chineses e os japoneses, fazem
uma violenta apologia de tudo o que não deve ser o comportamento dos indivíduos
mais novos. Porém, bombardeados por elaboradas técnicas de manipulação
psicológica, os adolescentes e adultos jovens são sutilmente conduzidos a
aceitar e a absorver conceitos e comportamentos deformados e deformantes.
Não bastasse tudo isso, ainda há o grave problema da apresentação aos jovens de
uma imagem patologicamente distorcida da sexualidade humana. Recentes pesquisas
realizadas com internautas têm mostrado que os principais consumidores de
pornografia na internet são, precisamente, os mais jovens. E este é apenas um
dentre muitos estágios que terminarão com a formação de adultos com sérios
desajustes em suas vidas sexuais e emocionais. E isto, fatalmente, terminará por
se refletir em todo um franco processo de adoecimento psíquico. O doentio
conteúdo pornográfico de muitos sites da World Wide Web, incontrolavelmente
acessados por multidões de jovens e de adolescentes, parece não estar recebendo
nenhuma forma de contenção. Muito pelo contrário, sites pornográficos crescem e
se multiplicam como baratas, a cada dia que passa. Até bem pouco tempo, se é que
isto mudou, as palavras campeãs em diversos mecanismos de busca internacionais
da internet eram sex (sexo) e mp3. Não é, pois, de se admirar que cresçam,
exponencialmente, os abortos, as disseminações das doenças sexualmente
transmissíveis (DSTs), e que a pandemia da AIDS esteja absolutamente fora de
controle. E o resultado não poderia ser outro, senão o crescimento assustador de
casos de jovens acometidos por transtornos mentais e afetivos das mais
diferentes categorias e nas mais diversas intensidades de suas manifestações.
Todos estes fatos são, ainda, coadjuvantes de ambientes familiares tensos e
desequilibrados. O lugar que deveria ser o mais tranqüilo recôndito de repouso e
de felicidade, a saber, o lar, transformou-se em um ambiente de conflitos e de
contendas. Não são poucas as pessoas que chegam ao ponto de postergar o retorno
às suas casas sabedoras do que lá as está a aguardar. E eu pediria ao querido
leitor que meditasse na gravidade e no absurdo desta situação. As danosas e
implacáveis conseqüências para o ambiente psíquico são, desta forma,
inevitavelmente devastadoras.
Imaginemos o seguinte quadro: Uma pessoa passa o dia inteiro debaixo das
pressões, cada vez mais crescentes, do ambiente de trabalho. Tem de ouvir e
assistir a fatos desagradáveis e se submeter a cobranças muitas vezes injustas e
mesmo agressivas de empregadores. Quando deveria estar desejosa de retornar ao
aconchego do seu repouso domiciliar, ao convívio de seus entes mais queridos, se
lembra de que em casa lhe espera um familiar alcoolista, desagradáveis notícias
sobre perigosas aventuras nas quais um filho problemático se envolveu, contendas
familiares e um aparelho de televisão anunciando, em alto volume, alguma nova
desgraça seguida de mais algum novo aumento de tarifas e de impostos. Onde está
a tranqüilidade de casa e em que se transformou o ambiente de repouso?
É esta a realidade, nua e crua, de bilhões de lares nas mais diversas e
diferentes sociedades do mundo de hoje. É este, ainda, o desestimulante, e não
menos assustador, panorama dos nossos dias. A despeito dos notáveis avanços
tecnológicos e dos impressionantes novos avanços da ciência, não é de se admirar
que estranhas sensações de mal estar, sentimentos inexplicados de tristeza e
perturbações do sono estejam atingindo um número cada vez maior de pessoas. É um
século de grandes avanços científicos e informativos, sem dúvida. Mas é também o
século da maior explosão de casos de pessoas sofrendo das mais diversas aflições
mentais e emocionais de que se tem notícia. A partir destas informações, o
leitor já poderá ter uma visão inicial sobre o porquê da atual explosão de casos
de transtornos mentais em nossos dias, onde figuram, com relevante destaque, os
transtornos depressivos e os transtornos de ansiedade. Mas, graças a Deus, nem
tudo está perdido!
Dr Adnet
¹World Health Organization, 2004/ Improving Access and Use of Psychotropic
Medicines.
²Top 200 Drugs for 2003 by U.S. Sales
³World Journal of Gastroenterology/Qui BS, Mei QB, Liu L, Tchou-Wong KM. Effects
of nitric oxide on gastric ulceration induced by nicotine and cold-restraint
stress. 2004.
4Forbes/IMSHealth/The World Best Selling Drugs,2004
Para Referência
Para referência de citação de fonte:
"Dr Adnet - O Século do Conhecimento
e das Aflições/Em:www.dradnet.com/"
O presente texto pode ser reproduzido, desde que inalterado e com citação da
fonte.
