Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

Psicanálise não é a Ciência da Mente

“Por que razão foi que nenhum dos piedosos jamais descobriu a Psicanálise? Por que ela teve de esperar por um judeu completamente sem Deus?” Sigmund Freud (1856-1939)

Em recente viagem, cheguei cedo ao aeroporto e me dirigi a uma livraria a fim de buscar algo interessante para ler, algo proveitoso, com substancial conteúdo. Logo me chamou a atenção a multiplicação de livros de auto-ajuda do tipo: ‘seja feliz agora’, ‘sucesso na vida financeira’, ‘melhore seus relacionamentos’ e outros títulos semelhantes. Evidentemente, já havia visto esses livros em diversas outras ocasiões, e também já li alguns deles, mas o que realmente chamou a atenção foi a multiplicação desses títulos. Logo pensei: Se pelo menos uma ínfima parte desses livros realmente funciona, por que se multiplicam tanto? Se dois ou três desses métodos fossem realmente eficazes não haveria mais tanto espaço para cada vez mais títulos dos mesmos gêneros, supostamente sempre inovadores, com alguma ‘nova fórmula’ para a felicidade ou para o sucesso. A crua realidade, entretanto, é que as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas, mais tristes e amedrontadas.

Por curiosidade, comprei alguns deles e me pus a buscar saber mais sobre seus autores. Já havia percebido que a maioria deles são traduções de livros estrangeiros, principalmente norte-americanos, mas já existe uma considerável quantidade deles escrita por autores brasileiros. Selecionei alguns desses livros e busquei saber mais sobre quem eram seus respectivos autores, tarefa hoje relativamente fácil pois dificilmente algum deles deixa de ter sua página na web com alguns vídeos de suas palestras. Me interessava ver o próprio sujeito falando, gesticulando, como se dirigia às pessoas e, principalmente, as reações físicas que acompanham seus discursos.

Dentre os que assisti, um deles me chamou bastante a atenção. Falava com tom firme, possuía uma atitude altiva e autoritária, sendo que seu Português dificilmente seria suficiente para aprovação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Falava o tempo todo sobre a mente e seus mecanismos, sempre mencionando o “subconsciente”, um termo popular que remete ao conceito do inconsciente psicanalítico inventado por Sigmund Freud. Todas as vezes que falava sobre os mecanismos da mente transpareciam, de modo inequívoco, os conceitos freudianos, ou seja, como o próprio Freud acreditava que entendia a mente humana. Ao examinar o currículo do cidadão, lá encontrei escrito: ‘Formando em Psicanálise’, o que já elucidava muita coisa a respeito do conteúdo de seus livros e palestras.
Tratava-se, neste caso específico, de um cidadão de visível pouca instrução, porém com habilidades para negócios, como ele mesmo afirmou em uma de suas aulas. Decidiu começar a escrever livros e a dar palestras sobre finanças, intitulando-se consultor na área.

Bem, aqui não me parece ser conveniente entrar no conteúdo de seus ensinos sobre finanças, mas em seus conhecimentos sobre a mente e seus mecanismos.
Devo admitir que considero louváveis seus esforços e me pareceu ser uma pessoa bem intencionada, todavia enveredou pelo caminho errado quando decidiu compreender a mente, pois escolheu o pior caminho possível para tal: a teoria freudiana.

Psicanálise não é a Ciência da Mente

O autor da Psicanálise, Sigmund Freud, embora sendo médico jamais elaborou algo de científico sobre a mente humana, sua abordagem sobre a mente foi completamente filosófica e ideológica. O que realmente encantava o morávio Freud eram as filosofias humanistas (o que nada tem a ver com humanitárias), o hedonismo e o ateísmo. Estas três linhas de pensamento possuem algo em comum: o homem como o centro de tudo e o desprezo para com Deus.

Freud, assim como o filósofo humanista Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872) e Friedrich Nietzsche (1844-1900), era obstinado pela idéia da negação de Deus. Freud, visivelmente influenciado por Feuerbach e por Nietzsche, dedicou grande parte de seus esforços no sentido de buscar não somente negar a existência de Deus, como também era um apologeta do Hedonismo mais pueril. Sigmund Freud afirmava que as pessoas precisam liberar seus instintos sexuais de modo exuberante, chegando a afirmar que as pessoas são muito mais imorais do que imaginam. Dizia que não passamos de animais e que os nossos instintos sexuais deveriam ocupar lugar de proeminência em nossas vidas. Freud afirmava ainda que as crianças são todas egoístas e que a felicidade das pessoas se resume à satisfação dos prazeres, sem repressões. Também afirmava que a religião é uma ilusão e que o objetivo da vida é a morte.

Pois bem, em cima desses conceitos bizarros e francamente deprimentes foi que Sigmund Freud elaborou sua teoria psicanalítica, buscando não a compreensão da mente e de seu real funcionamento, mas, adentrando no obscuro, buscou explicar suas concepções pseudocientíficas nos territórios do imaginário e da especulação. O que Freud realmente queria era a difusão de suas teorias, o que é facilmente observável em tudo o que escreveu. Freud não foi nem cientista e nem um pesquisador, era na realidade um incansável militante do Hedonismo e do Ateísmo.

No reducionismo interpretativo da psicanálise freudiana, tudo remontaria a experiências traumáticas vividas desde a infância, e estas mesmas experiências estariam ativas no inconsciente direcionando o comportamento das pessoas. Porém, como, exatamente, isso se dava Freud jamais explicou, apenas especulou. Isto fez com que Freud desenvolvesse um método de exploração do inconsciente completamente circunvolutivo e estanque, sempre terminando onde começou, ou seja, na sua própria concepção hermética e limitada do que ele chamava de inconsciente.

A metodologia investigativa da psicanálise de Freud, tal como na associação livre (falar sobre qualquer coisa que venha à mente - daí a necessidade do divã), análise de sonhos, hipnose, dentre outros, termina por desembocar no mesmo obscuro local, ou seja, no seu próprio conceito do que seria o inconsciente inventado por ele. Não é, portanto, nada surpreendente que o professor de finanças acima citado, ao falar sobre os mecanismos da mente, incluía quase tudo no hermético e minúsculo pacote do inconsciente de Freud.

Diferentemente da Psiquiatria que requer a formação em Medicina, mais a especialização em Psiquiatria, e da Psicologia que requer a formação em Psicologia (curso de nível superior), qualquer pessoa pode fazer um curso livre em Psicanálise (nenhum curso de Psicanálise é reconhecido pelo MEC), dar palestras e mesmo atuar em consultórios. A Psicanálise, portanto, não é ramo direto nem da Psicologia e nem da Psiquiatria. Há, entretanto, Psicólogos e também Psiquiatras que adotam a Psicanálise (em todo ou em parte) na sua atuação profissional. Este talvez seja um dos principais motivos que explicam a confusão que muitas pessoas fazem na hora de buscar informações ou tratamento para transtornos que se encontram no território da Saúde Mental.

Existem processos cerebrais e mentais inconscientes, porém à luz da ciência atual, os postulados de Freud se mostram cada vez mais obsoletos e arcaicos. A teoria psicanalítica de Sigmund Freud teve considerável influência cultural até a década de oitenta do século XX. Porém, no que diz respeito ao conhecimento dos processos mentais, hoje os livros que Freud escreveu servem mais a adornos de prateleiras de estantes ou a peças de museu.

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo