Fazendo Mal a si Mesmo. A Auto-sabotagem

Existem transtornos psiquiátricos que podem evoluir com a presença de comportamentos de risco, tentativas (ou consumação) de suicídio, uso e abuso de drogas, etc. Todavia, esses tais transtornos estão longe de poder explicar o porquê de tantas pessoas se sentirem cada vez mais infelizes, frustradas e insatisfeitas consigo próprias e com suas vidas a ponto de desejarem morrer.

Muitas dessas pessoas, se bem avaliadas por um psiquiatra experimentado, sairão do consultório sem diagnóstico algum. São pessoas mentalmente sadias, trabalhadores ativos, chefes de família responsáveis, donas de casa bem organizadas, estudantes brilhantes, idosos experientes, e por aí vai. Todavia uma coisa é comum a estas pessoas: a infelicidade e o “desejo de sumir”.

O que acabei de escrever acima pode parecer, à primeira vista, uma afirmação marcada por um brutal contra-senso, pois como considerar mentalmente sadia uma pessoa que deseja morrer?

O que a Psiquiatria chama de alma (psiquê) até hoje não tem deixado de se revestir de uma visão acentuadamente limitada diante do que é, de fato, o cerne principal e o coração do ser humano. E isto pode ser facilmente verificado ao se observar a estranha ênfase que hoje se dá à neuroquímica cerebral, o que resulta em tratamentos psiquiátricos, em muitos casos, excessivamente centrados em medicamentos. Como se o ser humano não passasse de um amontoado de células e nada mais.

Não resta a menor sombra de dúvida de que os atuais medicamentos de que dispomos dentro do crescente arsenal psicofarmacoterapeutico são espetacularmente eficazes em muitos transtornos psiquiátricos. Todavia, a crescente tendência em procurar compreender o funcionamento da mente humana prioritariamente a partir da química cerebral (e encefálica) é um caminho que não deixa de apresentar sérios riscos.

Durante pelo menos 6000 anos de História, as pessoas viveram sem a necessidade de ansiolíticos, de inibidores da recaptação de serotonina, sem estabilizadores do humor, e sem antipsicóticos atípicos. Viveram e sobreviveram. E somos filhos dessa gente.

E por mais que sejamos cercados por inovações tecnológicas diversas, muitas delas utilíssimas, todavia há um dado que não deixa de nos chamar a atenção: o ser humano está cada vez mais triste, as pessoas estão mais infelizes, mais desesperançadas e se sentindo cada vez mais sós.

O progresso científico tem aproximado cada vez mais o homem do conforto físico ao mesmo tempo em que o tem afastado da felicidade. E o que é a felicidade?

Como escrevi acima, a visão que tem a Psiquiatria moderna sobre o que seja a alma humana parece estar se tornando cada vez mais alienada da compreensão do que seja o coração humano, não o que bombeia o sangue, mas o que sente a dor da tristeza, que amarga o sentimento de solidão e que percebe, em muitos casos, um vazio de existir.

O coração humano é o local invisível e inerente à constituição humana que também percebe a felicidade, ou não a percebe quando ela simplesmente inexiste na vida de alguém.

A felicidade é o doce entrelaçamento entre a paz de espírito em um coração que transborda amor. Amor a si próprio e amor ao seu semelhante. Mas se a noção da ciência sobre o que seja a alma humana deixa de atentar para o coração, consequentemente deixará de reconhecer a natural necessidade que este possui de paz de espírito e de amor. E se ao longo da busca natural pela paz de espírito e pelo amor de que tanto o coração necessita, e muitos não os encontram, dentre esses não são poucos os que iniciam um processo de auto-aniquilação silenciosa.

A Auto-sabotagem

O número de pessoas que cometem suicídio pelo mundo a fora é tão assustador que já pode ser contado em números de suicídios por segundo. E na macabra relação dos principais métodos utilizados pelos suicidas estão o sangramento provocado pela incisão nos punhos, pelo enforcamento, pelo atropelamento provocado, pela sufocação, pelo afogamento, pelas armas de fogo, dentre outros. Porém não é sobre esse tipo de busca pela morte que desejamos aqui comentar, mas sim sobre a auto-sabotagem, ou seja, os métodos de auto-aniquilação silenciosos, muitas vezes pouco perceptíveis aos que convivem com a pessoa que trata mal de si própria buscando morrer aos poucos.

Dentre esses métodos (igualmente macabros e profundamente lamentáveis) encontram-se em acentuado destaque o etilismo, o uso de drogas (principalmente a cocaína - e também o crack) e a busca insaciável pelo sexo. Falaremos sobre cada uma destas formas de auto-sabotagem a seguir.

1- O Etilismo

Em meus vários anos de experiência na prática psiquiátrica, tenho constatado que o principal problema no que diz respeito ao alcoolismo não é o vício em si, mas o motivo da busca pelo álcool. Embora a agressiva e covarde propaganda do uso do álcool tenha uma influência imensa na proliferação da bebedeira generalizada que assistimos à nossa volta, o principal motivo da busca pelo álcool é, primeiramente, o desejo de alienação da visão de uma realidade pessoal profundamente infeliz. O segundo motivo, este muitas vezes negado pelo etilista, é o desejo da auto-aniquilação silenciosa. E não são poucas as vezes em que mesmo o chamado etilista social sabe que ao se embriagar as portas das possibilidades de ocorrência de acidentes e de tragédias diversas lhe são abertas pelos efeitos inebriantes do álcool. E muitas vezes é exatamente isto o que ele (ou ela) está buscando. Não há aqui, absolutamente, nenhuma atitude de condenação sobre estas pessoas, muito pelo contrário. Mas esta constatação é inevitável, pois é facilmente verificável na prática. O etilismo é o modo mais popular de auto-sabotagem que existe.

2- O uso de Cocaína

Embora, em essência, os motivos para a busca do álcool e da cocaína sejam os mesmos, no caso da cocaína a atitude do usuário se reveste de características um tanto quanto mais agressivas, pois a alienação da realidade se dá de modo imediato, intenso e mais eficaz. Diferentemente das fases dos efeitos progressivos do álcool sobre a consciência, a atenção, o raciocínio e a sensopercepção, o que termina por obnubilar severamente a mente do etilista, no caso dos usuários da cocaína (e do crack) a percepção da realidade à sua volta permanece bem mais preservada do que com o álcool, sendo que a isto se soma uma sensação artificial de euforia e de poder, o que faz com que o sofrimento íntimo seja mais intenso, pois a infelicidade continua a ser percebida e vivenciada, sendo, todavia, como que mesclada com uma espécie de anestesia. Pode-se disto deduzir que há um importante componente masoquista no uso frequente da cocaína, mais do que masoquista, mas um desejo de assistir acordado e artificialmente euforizado o desabamento da própria casa, que no caso significa a progressiva ruína da própria vida. Este também é um método de auto-sabotagem. Mais doloroso, entretanto.

3- A Busca Insaciável por Sexo

Durante vários anos busquei compreender a fundo por que tantas pessoas buscam a pornografia, a prostituição e relacionamentos extraconjugais. Busquei também entender por que a pornografia continua se proliferando que nem baratas em esgoto na internet.

As explicações mais frequentemente ouvidas são as que asseveram que estes sites pornográficos (heterossexuais e homossexuais) se proliferam porque são um negócio bilionário a nível mundial. Isto não deixa de ser realidade, porém trata-se aqui de uma simples consequência óbvia em razão do crescente número de pessoas que buscam a pornografia. A questão não é esta, mas sim o motivo por essa busca. E aqui a explicação para esta busca é um pouco mais complexa do que a busca pela auto-sabotagem pelo álcool e pelas drogas.

A História possui material artístico mais do que abundante retratando através de pinturas, esculturas e poemas o amor entre um casal. E em grande parte (senão na maioria) dessas manifestações artísticas históricas estão presentes, de forma mesclada e harmonizada, afetos e sexualidade, o que é perfeitamente natural. As relações sexuais quando preenchidas por amor e carinho mútuos são relações saudáveis e possuem a capacidade de suprir plenamente as carências afetivas e sexuais presentes nos seres humanos. Todavia, este tipo de relação só sobrevive se houver compromisso e fidelidade mútua. E a consumação plena deste tipo de relação se dá pelo matrimônio. A experiência humana tem demonstrado que é impossível a um homem amar e se dedicar a mais de uma mulher. Também uma mulher não pode amar e se dedicar a mais de um homem. O modelo histórico da estrutura familiar é o melhor modelo de relação conjugal que existe, e aqui não se trata de minha opinião, mas de uma constatação histórica, só não o reconhecendo quem deliberadamente desejar fechar os olhos a esta verdade.

Há casais que perderam esta estrutura conjugal porque se separaram, outros porque ficaram viúvos, e há os que nunca jamais experimentaram uma vida conjugal, ou por serem solteiros, ou por apresentarem algum transtornos de função do sistema reprodutor.

Todavia, como por instinto natural, as pessoas sempre buscam alguém para estar ao seu lado, e esta busca é pela afetividade envolvida na relação e também pelo componente sexual relacionado a ela.

A busca pela prostituição e pela pornografia nada mais é do que um meio doentio de assistir uma relação sexual entre duas pessoas a fim de que se possa consumar a fantasia da projeção. É algo como assistir a um filme onde pessoas se banqueteiam em uma mesa, e o expectador se projeta nessa mesa irreal, como se ele próprio ali estivesse. Mas não está. E uma das inevitáveis consequências da busca frequente pela prostituição e pela pornografia é um brutal aumento do vazio afetivo, da dolorosa percepção da solidão e da tristeza. Estes comportamentos, não infrequentemente, se tornam compulsivos, o coração se entristece e esfria cada vez mais. A pessoa tende a assumir uma postura mórbida e sarcástica em relação a tudo o que diga respeito a sexo, e isto termina por conduzi-la à perpetuação dos comportamentos sexuais compulsivos até ao ponto de experimentar as experiências da prostituição ou da pornografia como um meio de se auto-sabotar, de fazer mal a si mesma. São comportamentos autodestrutivos, pois estes comportamentos refletem rejeição a si próprio. E o ódio ou a rejeição de si próprio tendem a conduzir à auto-sabotagem. E a tão sonhada relação ideal jamais chega, pois a busca está sendo feita no território errado. E isto sem falar que em muitas situações a busca já não mais existe. Algo como uma derrota aceita, algo como uma rendição.

Todas as formas de auto-sabotagem devem ser tratadas o quanto antes. Porém, se o coração humano e suas necessidades não forem profundamente considerados, o tratamento poderá ter um efeito apenas parcial. Isto se não redundar em um espetacular e lamentável fracasso. Para o paciente, e também para o psiquiatra.

 

Dr Eduardo Adnet - Médico Psiquiatra

Especialista Titulado Pela Associação Brasileira de Psiquiatria e

Associação Médica Brasileira