Dr Eduardo Adnet


Médico Psiquiatra e Nutrólogo

 

 

A Vulgarização do Termo Depressão


Não resta a menor dúvida de que a prevalência dos Transtornos de Ansiedade e dos Transtornos do Humor têm aumentado de modo dramático nos últimos anos. As estatísticas são abundantes e a crescente procura por profissionais da Saúde Mental, principalmente Psiquiatras e Psicólogos, também é um evidente indicador deste fenômeno de nossos dias. Todavia, também cresce de modo preocupante a vulgarização do termo Depressão em sua significação psicopatológica, fato este que traz consigo o risco real de diagnósticos mal formulados com consequentes terapêuticas inadequadamente instituídas e com óbvio risco para a saúde dos pacientes.

O fato de a mídia brasileira ter passado a dar mais atenção às multidões de indivíduos portadores de transtornos psiquiátricos não deixa de ter seu lado positivo, pois o direcionamento do foco de atenção da população para a realidade do aumento do número de pessoas que padecem destes transtornos psiquiátricos já é um passo importante para o esclarecimento de um tema que, até bem poucos anos atrás, era pobremente abordado. O lado negativo desta história é que o conteúdo de diversas matérias sobre o tema chega a ser pavoroso, ainda que levado em consideração o fato de serem indivíduos leigos a discorrer sobre o assunto (jornalistas, apresentadores de programas de televisão e de rádio, por exemplo). Poderíamos dizer que “merecem um desconto”.

Já bem mais preocupante é o fato de vermos colegas médicos de outras especialidades que não a Psiquiatria (e talvez, e principalmente, os médicos sem nenhuma especialidade médica) em uma atitude profissional reducionista misturando em uma mesma “fórmula diagnóstica” dezenas de categorias diagnósticas da Classificação Internacional de Doenças (CID 10), sobretudo as do Capítulo V, Transtornos mentais e comportamentais (F00-F99), e obtendo o resultado: Depressão.

Penso como deve ser a sensação dos colegas médicos especialistas em Dermatologia verem doenças de pele como a Dermatite seborréica, a Psoríase, a Parapsoríase, o Eritema nodoso e a Radiodermatite, por exemplo, serem todas elas denominadas por outros médicos de “Eczema”. E pior ainda, ao verem estas distintas dermatopatias serem todas elas medicadas com aqueles cremes do tipo três em um.

Semelhantemente, para nós Psiquiatras, chega a ser angustiante ver Transtornos da Personalidade, Transtorno Esquizoafetivo, Transtornos Somatoformes, Ciclotimia e o Transtorno do Humor Bipolar serem todos eles chamados de “Depressão” e serem tratados com a “consagrada fórmula terapêutica”: ISRS + BDZ.

Convém aqui lembrar (ou informar aos que este fato desconheçam) que o território da Psicopatologia, da Psicofarmacologia e da Psiquiatria exige e requer a mesma precisão com a qual uma cirurgia de Catarata deve ser realizada.

Segundo dados do JAMA (Journal of the American Medical Association), nos EUA morrem por ano 106.000 pacientes em decorrência de efeitos colaterais adversos de medicamentos adequadamente prescritos. Por este impressionante número estatístico podemos ter uma idéia de quão delicada é a questão mesmo em se tratando de terapêuticas adequadamente instituídas. Some-se a este número, ainda segundo o JAMA, 7.000 mortes/ano em decorrência de erros de prescrição.

Lembrando, também, que, segundo a Organização Mundial de Saúde, uma pessoa se suicida em algum lugar no planeta a cada quarenta segundos, e que 90% dos suicídios estão associados a Transtornos Mentais e ao abuso de substâncias.

Este breve artigo bem poderia terminar aqui, pois a desagradabilíssima realidade destes fatos já fala por si. Todavia, me permitirei fazer ainda mais algumas considerações. Antes, porém, não poderia deixar de reconhecer o mérito de tantos e tantos colegas médicos, os quais enfrentando péssimas condições de trabalho, sofrendo pressões de toda ordem, tendo de lidar com remunerações literalmente ridículas, tendo que suportar a pobreza intelectiva associada à maldade de não poucas administrações municipais Brasil afora, o já bem conhecido uso político do médico, como bem citou o colega José Luiz Gomes do Amaral - presidente da Associação Médica Brasileira (AMB) – em seu artigo “Cidades sem Médicos”, publicado no portal do Conselho Federal de Medicina em 5/2/2009, exercem a Medicina de cabeça erguida sendo dignos do Diploma que conquistaram e da espinhosa missão que lhes foi conferida, qual seja, o cuidado da saúde do próximo. Isto dito, passemos às considerações:

Infelicidade, Frustração e Fracasso não são sinônimos de Transtorno Depressivo, logo, não são “Depressão”. Consequentemente (se é que a linguística, a lógica e o bom-senso signifiquem alguma coisa) não se resolvem fracassos familiares ou financeiros com ISRS + BDZ, não se alegra ninguém com Carbonato de Lítio e de ninguém pode ser removido um sentimento de frustração reativo com o uso de algum Estabilizador do Humor.

Assim como se faz necessária uma percepção auditiva, intelectual e afetiva sofisticadas a fim de que se possa apreciar satisfatoriamente a ópera La Bohéme de Giacomo Puccini, por exemplo, não há como formular um diagnóstico psiquiátrico preciso com um nível de sofisticação técnica metaforicamente proporcional ao requerido para se ouvir o Happy Birthday To You.

Pela legislação brasileira ora vigente, é permitido ao médico devidamente inscrito no Conselho Regional de Medicina do Estado onde se encontra a exercer a Medicina a realização de atos médicos em praticamente todos os territórios das mais de 50 especialidades médicas existentes no Brasil. Obviamente, isto não significa que um médico recém-formado esteja apto a realizar uma neurocirurgia pediátrica ou a tratar adequadamente um caso de Líquen rubro moniliforme. E quem dentre nós confiaria algum de nossos parentes aos cuidados de um médico recém-formado a fim de que este proceda a uma angioplastia em algum de nossos entes mais amados? E por que haveria de ser diferente em relação à Psiquiatria?

Nós, médicos, os que já podemos contar os anos de atuação profissional em décadas, também já fomos recém-formados, razão pela qual ressalto que a consideração neste caso não significa crítica ou desprezo pelos colegas recém-formados, muito pelo contrário, mas sim sobre uma política de saúde governamental que já teve mais do que tempo de sobra a fim de se dar conta de que seu prognóstico é sombrio caso persista em seus muitos equívocos gerenciais. O Brasil encontra-se hoje entre os países com os piores desempenhos de seus serviços públicos de saúde.

“O Brasil ocupa a 125ª posição no rank internacional de bom desempenho dos sistemas públicos de saúde, e sua péssima colocação chega a ser inferior a países como El Salvador, o qual ocupa a 115ª posição. Os dez melhores colocados são, nesta ordem: França, Itália, San Marino, Andorra, Malta, Singapura, Espanha, Omar, Áustria e Japão. (World Health Report 2000) Organização Mundial de Saúde, pp153)”.

A bizarra situação do excesso de escolas médicas no Brasil não reflete outra coisa senão uma explícita tentativa de proletarizar a classe médica, submeter os médicos brasileiros à subserviência da putrefata política brasileira com a futura, e provavelmente irreversível e lamentável, queda do bom prestígio internacional que a medicina brasileira tem experimentado ao longo de décadas. Chegamos ao ponto de termos tido que ouvir a notícia de que uma conhecida figura pública se saiu com a seguinte frase:

"médico é igual a sal: branco, bonito e barato"

Por fim, declaro que sou enfaticamente favorável a que se torne obrigatória uma prova de aptidão para o exercício da medicina, à semelhança do exame da Ordem dos Advogados do Brasil, e que cada vez mais se valorize o Título de Especialista.

Dr Eduardo Adnet

Médico Psiquiatra e Nutrólogo